No decurso da década de 1850, o País atravessava uma grave crise na problemática da Saúde. No nosso Concelho, não existia qualquer estabelecimento hospitalar ou semelhante para atendimento e tratamento de doentes. Foi, nessa altura, que o médico fafense, Dr. Miguel António Soares, sensibilizado para este grave problema, incitou e convenceu seu filho, José Florêncio Soares, abastado e influente comerciante com interesses em Fafe e na Cidade de Rio de Janeiro (a quem Fafe dedica com a maior justiça, uma das mais belas praças) a que promovesse, junto dos seus compatriotas residentes na cidade do Rio de Janeiro, uma campanha de angariação de fundos para a construção de um hospital na nossa terra. E teve bom êxito o nosso José Florêncio Soares.

Efectivamente, logo promoveu e liderou uma comissão de angariação de fundos, também denominada “Comissão de subscritores fundadores”, constituída pelos ilustres brasileiros, Comendador António Gonçalves Guimarães (Sogro do tribuno e escritor José Cardoso Vieira de Castro), servindo de Presidente, Bernardo Ribeiro de Freitas, primeiro Secretário, Comendador Albino de Oliveira Guimarães, segundo Secretário, Comendador José António Vieira de Castro, Tesoureiro e Luís António Rebelo de Castro, Procurador.

Por sua vez, esta comissão nomeou outra, denominada “Comissão Edificadora do Hospital”, constituída por quatro elementos de reconhecida idoneidade e capacidade, a saber: Dr. Florêncio Ribeiro da Silva, Presidente, António José Leite Lage, Vice-presidente, José Florêncio Soares, Secretário, e Miguel António Monteiro de Campos, Tesoureiro.

Esta comissão, instalada em Fafe, ficava encarregada de dirigir a obra de edificação do Hospital, e para tanto, recebia instruções e fundos da Comissão sedeada na metrópole brasileira. E assim, foi dela que recebeu o risco ou projecto para o Hospital que é uma cópia fiel da “Beneficente Portuguesa do Rio de Janeiro”. E dela recebeu também, para além dos fundos já obtidos, a ordem de que, construído o Hospital, seria entregue a uma Irmandade que o ficava a administrar e a dirigir.


Em 6 de Janeiro de 1859, dia de Reis, com grande pompa e alegria, foi lançada a primeira pedra do Hospital, ao qual, inicialmente se atribuiu o nome de “Hospital da Caridade” por se destinar aos “Pobres da Vila e a todos da Comarca” (SIC). Os trabalhos desta empreitada jamais pararam. Aos generosos emigrantes do Brasil juntaram-se os também generosos homens de Fafe; e, assim, com grande entusiasmo, multiplicaram-se as campanhas e organizaram-se cortejos e subscrições, em que se salientou Monsenhor Vieira de Castro.

É interessante referir que foi a Câmara Municipal de Fafe, da Presidência do Dr. António Leite de Freitas e Castro, que, a pedido da referida Comissão Edificadora, cedeu, gratuitamente, o terreno para a implantação desta humanitária obra. Em 19 de Março de 1863, Dia de S. José, com a presença do Governador Civil do Distrito, das altas autoridades fafenses e de toda a população, foi solenemente inaugurado e aberto à comunidade o tão desejado e necessário Hospital, já com o nome de “Hospital de S. José”, que ainda hoje é um dos mais belos e majestosos edifícios da nossa cidade.

Porque, nessa altura, eram as Irmandades das Santas Casas da Misericórdia quem superintendia na maioria dos hospitais, foi, então, criada a “Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Fafe” ou “Misericórdia de Fafe”, a quem o Hospital veio a ser entregue.

Interessante será também referir que foi o já referido José Florêncio Soares quem, a expensas suas, custeou totalmente as despesas com a erecção do grandioso altar que existia na capela, inicialmente construída no interior do Hospital e que foi desmantelado quando da última remodelação do edifício, tendo sido aproveitadas diversas peças que, posteriormente, foram utilizadas na construção do altar da Capela do nosso Lar de Cepães.

Este edifício, para além do Hospital, funcionava também como Secretaria da Misericórdia. Na medida do possível, as instalações iam melhorando e propiciando novos serviços que agradavam a toda a comunidade.

Assim se manteve até aos anos de 1900, altura em que o brasileiro e grande benemérito Manuel Baptista Maia, casado, que residia nesta cidade, no então Largo D. Carlos I, hoje, Praça 25 de abril, mandou construir, a expensas suas, na Rua Montenegro, um edifício de bela traça, que destinou a “Asilo de Inválidos”, e que, depois de construído, foi legado à Misericórdia para que o gerisse e administrasse como propriedade sua.



Ficou, então, a Misericórdia com as valências da saúde (Hospital) e de protecção à invalidez (Asilo). Situação esta que se manteve até à nacionalização do Hospital, no Ano de 1976.

Desapossado do seu Hospital, a Misericórdia ficou reduzida ao pequeno Asilo, sentindo-se como que aniquilada e humilhada. Porém, “Deus escreve certo por linhas tortas”, pois aquilo que parecia ser uma derrota logo se transformou em glória.

É que a revolução do 25 de Abril, causa da Nacionalização dos hospitais, veio alterar o “modus vivendi” da sociedade portuguesa. Estas alterações têm os seus custos. O lançamento da mulher no mercado de trabalho originou a necessidade da multiplicação dos infantários e dos lares. E ainda bem que as Misericórdias se capacitaram a dar cobertura a estas novas necessidades.

Assim aconteceu com a Misericórdia de Fafe. Espoliada da sua actividade no campo da saúde, logo acorreu a satisfazer outras necessidades da comunidade, quer nas áreas da infância e juventude, quer na terceira idade.

Foi então que lançou mãos à construção do seu Lar – Sede, hoje, denominado, “Lar Cónego Leite de Araújo”, que veio a ser inaugurado a 16 de Novembro de 1983, construído para 85 idosos internados.

Neste Lar vieram a ser, posteriormente, instaladas as valências de Centro de Dia, apoio domiciliário a idosos, apoio domiciliário a deficientes, salão de estudo e escola de música.


Entretanto, foi encerrado o Asilo da Rua Montenegro, conhecido como “Asilo do Maia”, por necessitar de obras urgentes e profundas, tendo os respectivos serviços sido transferidos para a Casa do Calvário, sita na Rua Visconde Moreira de Rei, que, posteriormente veio a ser transformada em Lar de Idosos.

Nesta altura já a Misericórdia de Fafe tinha recuperado o seu anterior prestígio (aparentemente perdido aquando da Nacionalização do Hospital) e foi então que a Segurança Social lhe ofereceu, por contrato de gestão de 01.04.86, o infantário que havia lançado na Rua João XXIII (antiga residência do Dr. Malheiro) e que hoje é conhecido como infantário nº 1.

Estudado o destino a dar ao antigo “Asilo do Maia”, foi deliberado recuperá-lo e adaptá-lo a infantário, surgindo, assim, no final da década de 1980, o infantário da Rua Montenegro ou Infantário nº 2.

Nesta altura, verificou-se a necessidade de proteger as crianças do ensino básico (crianças dos 6 aos 10 anos) nos seus tempos livres. Para o efeito e de acordo com a Fábrica da Igreja, foram criados nove ATL que se distribuíram pelas zonas da paróquia. Estes ATL, dotados com Educadoras, não só ajudam as crianças na feitura dos seus deveres escolares, como também as libertam dos perigos da rua e as vão encaminhando na prática do bem. Posteriormente, devido às alterações nos horários escolares e à introdução de atividades extracurriculares, estas respostas perderam importância, cingindo-se atualmente a apenas 3 centros de ATL.

Não obstante a Misericórdia estar a crescer, a verdade é que não conseguia superar as necessidades que se lhe deparavam, sobretudo a nível da terceira idade, pois, os dois Lares existentes e a funcionar em pleno, eram manifestamente insuficientes para os inúmeros pedidos de internamentos.

Por isso, por iniciativa e a pedido do saudoso Cónego Leite de Araújo (o verdadeiro herói na expansão da Misericórdia de Fafe), a generosa família do conhecido Major Valentim Loureiro, que havia arrematado, em hasta pública, diversos edifícios da Companhia de Fiação e Tecidos de Fafe (Fábrica de Ferro) cedeu à Misericórdia, em regime de contrato de comodato, e, consequentemente, sem a obrigação do pagamento de qualquer renda, dois edifícios urbanos, situados na Rua José Ribeiro Vieira de Castro, que se encontravam devolutos e, depois de algumas obras de adaptação, transformaram-se no denominado Lar da Fábrica do Ferro que, desde o início da década de 1990, vinha albergando 40 idosos e que, entretanto, foi desactivado por imposição da Segurança Social, sendo estes utentes transferidos provisoriamente, para o Lar D. Alzira Oliveira Sampaio.

Mas, nem assim a Misericórdia conseguia satisfazer todos os pedidos de internamento que se lhe apresentavam. Por consequência, logo se programou a construção de um novo Lar, a construir na Quinta da Lage, em Cepães, Lar este que veio a ser inaugurado em 5 de Setembro de 1995 e que se denomina Lar de Cepães ou Lar D. Maria Joaquina Leite Lage.


A Misericórdia de Fafe jamais parará de progredir. É que, quanto mais cresce, mais necessidades surgem para solucionar. Em 2007, concluiu, em Quinchães, o Lar D. Alzira Oliveira Sampaio, destinado a deficientes profundos e crianças em risco, com 30 camas para cada valência, que alberga provisoriamente os idosos que foram transferidos do extinto Lar da Fábrica de Ferro. Contíguo a este Lar, foi posteriormente construído o Lar Dr. António Marques Mendes, uma estrutura residencial para 40 idosos que entrou em funcionamento em 2014. No ano seguinte, ficou concluída a empreitada de restauro e requalificação da Casa do Calvário, agora designada de Lar de Sto. António, onde residem 38 idosos.

Recentemente, em 2015, e cerca de 40 anos pós a sua nacionalização, o Hospital de S. José regressa à Misericórdia de Fafe: reconhecendo que “as Misericórdias (…) aliam as exigências técnicas da prestação de cuidados de saúde à sua vocação e tradição multisseculares, à ausência de fins lucrativos e à proximidades das populações”, a tutela deu início ao processo de devolução dos estabelecimentos de saúde, regulado pelo Decreto-lei n.º 138/2013, de 9 de Outubro, e materializado no acordo de cooperação assinado em 14.11.2014 entre a ARS Norte e a Misericórdia de Fafe, o qual entrou em vigor em 01.01.2015, mantendo o Hospital de S. José integrado no Serviço Nacional de Saúde.

Com as respostas que tem em funcionamento, o sector educativo, que inclui um salão de estudo que agrega alunos dos 1.º, 2.º e 3.º ciclos, serve cerca 400 utentes. No sector social, as Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI), os serviços de Apoio Domiciliário a Idosos, de Apoio Domiciliário a Deficientes, Centro de Dia e Cantina Social, servem 375 utentes. No sector da Saúde, a Unidade de Convalescença tem capacidade para 27 camas. A Misericórdia de Fafe lida, assim, com cerca de 800 utentes, dos 0 aos 100 anos, servidos por um corpo que ronda os 380 funcionários.